UTILIZAÇÃO DO FLUORETO

 


A Associação Brasileira de Odontopediatria (ABO-Odontopediatria), reconhecendo o fluoreto como um instrumento seguro e eficaz para reduzir o risco de cárie e reverter a desmineralização do esmalte, incentiva agentes de saúde pública, profissionais de saúde e pais/responsáveis a otimizarem a exposição a este íon.

2. Bases Conceituais

A fluoretação das águas de abastecimento público em concentrações ótimas é considerada um método benéfico, econômico e eficaz para a redução da incidência de cárie dentária¹. Dados epidemiológicos da segunda metade do século XX indicam reduções de 55% a 60% nas taxas de cárie, sem ocorrência significativa de fluorose dental, em comunidades com água fluoretada adequadamente.
Além da fluoretação da água, outras formas de administração de fluoreto demonstraram ser eficazes e econômicas. Evidências acumuladas sugerem que o custo da atenção à saúde bucal infantil pode ser reduzido em aproximadamente 50% com o uso prolongado e adequado de fluoretos². Contudo, os maiores benefícios são obtidos quando o uso de fluoretos é combinado com outras medidas preventivas, como educação em hábitos alimentares e higiene oral, prescritas por cirurgiões-dentistas que conheçam o histórico de saúde bucal da criança e de sua família³⁻⁵.
Quando a fluoretação da água não é viável, alternativas eficazes incluem o uso de produtos tópicos (cremes dentais, géis, enxaguantes e vernizes)⁹. É crucial notar que:
  • Produtos tópicos devem ser usados com cautela em crianças pequenas para evitar ingestão excessiva¹⁰.
  • Estudos clínicos confirmam a eficácia anticárie do verniz de fluoreto de sódio a 5%¹¹⁻¹², capaz de impedir ou reverter a desmineralização do esmalte.
  • Em crianças de alto risco, o verniz fluoretado e materiais restauradores liberadores de flúor¹³ são componentes valiosos de um programa preventivo integrado, conceito conhecido como "odontologia caseira" ou dental home¹⁴⁻¹⁵.
Antes de prescrever suplementos sistêmicos de fluoreto, é imperativo avaliar todas as fontes de exposição do indivíduo (água potável, bebidas, alimentos processados, cremes dentais) para determinar a dose total ingerida e evitar o risco de fluorose¹'⁶⁻⁸.

3. Diretrizes da ABO-Odontopediatria

A Associação Brasileira de Odontopediatria estabelece as seguintes diretrizes para o uso de fluoretos:
  1. Fluoretação da Água: Endossa e incentiva, sempre que viável, o ajuste dos níveis de fluoreto nas fontes de abastecimento de água da comunidade.
  2. Suplementação Sistêmica: Considera desnecessária e não endossa a suplementação dietética de fluoreto para crianças, mesmo na ausência de água fluoretada, devido à dificuldade de controle preciso da ingestão total de flúor e ao risco de fluorose.
  3. Educação sobre Fluorose: Esforçar-se-á para informar a classe médica e odontológica sobre os riscos potenciais de fluorose do esmalte associados à suplementação além das quantidades recomendadas ou à ingestão inadvertida de cremes dentais.
  4. Pesquisa em Fluorose: Promoverá pesquisas continuadas sobre a etiologia e prevenção da fluorose dentária.
  5. Uso Pré-natal: Não recomenda o uso de suplementos de fluoreto durante a gestação.
  6. Uso Tópico Profissional: Endossa o uso apropriado de soluções contendo fluoreto e vernizes fluoretados para aplicação tópica profissional.
  7. Avaliação de Risco: Recomenda o diagnóstico individualizado do risco e da atividade de cárie do paciente para determinar a necessidade e o tipo de produto fluoretado a ser utilizado (ver Capítulo 7).
  8. Inovação Tecnológica: Incentiva a pesquisa contínua sobre produtos fluoretados seguros e eficazes, incluindo novos materiais restauradores.
  9. Baixas Concentrações: Incentiva estudos sobre a efetividade de dentifrícios com baixas concentrações de fluoreto (250-600 ppm) na prevenção e controle da cárie.
  10. Orientação aos Pais: Sugere que os dentifrícios infantis contenham fluoreto e que os rótulos orientem claramente o uso sob supervisão parental, restringindo a quantidade a porções pequenas (0,10 a 0,30g), conforme prescrição do cirurgião-dentista.

4. Guia para Terapia com Fluoretos

Finalidade

Este guia visa auxiliar clínicos, pais e responsáveis na tomada de decisões regarding o uso apropriado do fluoreto como parte integrante do cuidado detalhado de saúde oral para bebês, crianças, adolescentes e pessoas com necessidades especiais.

Método

As diretrizes foram atualizadas mediante revisão completa da literatura científica relativa ao uso de fluoreto sistêmico e tópico.

Fundamentação Científica

O uso de fluoretos para prevenção e controle da cárie é documentado como seguro e altamente efetivo¹⁶⁻¹⁸. A otimização dos níveis de fluoreto na água de abastecimento permanece como a medida ideal de saúde pública, pois é eficaz, de baixo custo e não depende da cooperação diária consciente dos indivíduos¹⁸'¹⁹.
Para populações sem acesso à água fluoretada, a exposição diária monitorada ao fluoreto via creme dental (após os 6 meses de idade) constitui uma estratégia preventiva primária eficaz. A prescrição de suplementos sistêmicos não é recomendada pela ABO, pois exige uma avaliação complexa de todas as fontes dietéticas de flúor (água doméstica, escolar, bebidas, alimentos, pastas) para determinar a exposição real do paciente, tarefa de difícil execução na prática clínica rotineira²⁰'²¹.
O uso de creme dental em crianças incapazes de expectorar adequadamente aumenta o risco de fluorose²⁰⁻²². Portanto, o benefício anticárie deve ser ponderado contra esse risco. Tratamentos profissionais tópicos demonstraram alta eficácia²³, utilizando agentes como fluoreto estanoso a 8%, gel de fosfato ácido de flúor (APF) a 1,23% e verniz de fluoreto de sódio a 5%²⁴'²⁵. Crianças com alto risco de cárie²⁶ podem necessitar de terapias adicionais.

Recomendações Práticas

A. Suplementos Sistêmicos de Flúor

Embora a Academia Americana de Odontopediatria (AAPD) endosse a suplementação para crianças em áreas com água deficiente em flúor (<0,6 ppm), baseada em escalas de dose específicas, a ABO-Odontopediatria mantém sua posição de não recomendação.
  • Justificativa: A dificuldade prática em auditar todas as fontes de ingestão de flúor pelo paciente eleva o risco de prescrição inadequada e subsequente fluorose.
  • Alternativa: Priorizam-se métodos tópicos e medidas preventivas associadas para pacientes sem acesso à água fluoretada.

B. Tratamento Tópico Profissional

  • Deve ser baseado na avaliação individual do risco de cárie¹⁸.
  • A profilaxia prévia não é pré-requisito obrigatório para a aplicação²⁷.
  • Precauções rigorosas devem ser adotadas para evitar a deglutição do produto aplicado.

C. Uso Domiciliar (Auto-aplicação ou pelos Responsáveis)

  • Creme Dental: É a base da prevenção. Pais/responsáveis devem ser instruídos sobre a frequência de escovação e a quantidade adequada.
    • Quantidade Recomendada: Não exceder o tamanho de um grão de arroz cru para crianças com risco de ingestão ou muito jovens²⁸.
  • Situações de Alto Risco: Crianças com aparelhos ortodônticos/protéticos, hipossalivação, dificuldade de higiene, risco dietético elevado, histórico familiar de cárie ou altos níveis de bactérias cariogênicas devem receber atenção especial.
    • Para crianças em idade escolar, podem ser recomendados enxaguantes bucais com flúor ou géis aplicados com escova, uma vez ao dia.
  • Aplicações Profissionais Frequentes: Indicadas quando o paciente apresenta risco elevado de cárie ou não consegue colaborar com a terapia domiciliar.

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